As alterações de preço, a escassez de matérias-primas ou a entrada de novos intermediários podem modificar a exposição de uma empresa à fraude alimentar. Identificar estes sinais e compreender como funciona a cadeia de abastecimento permite rever os controlos antes que ocorra uma incidência.
A fraude alimentar pode assumir formas muito diferentes: a substituição de uma matéria-prima, a adição de um ingrediente não declarado, a falsificação de documentos ou uma declaração enganosa sobre a origem de um produto. As suas consequências também não se limitam ao prejuízo económico. Um episódio de fraude pode afetar a segurança alimentar, comprometer a rastreabilidade e prejudicar a confiança numa marca.
Para se antecipar, convém compreender que condições tornam possível a fraude. Habitualmente, confluem três fatores: existe um benefício económico potencial, há uma oportunidade para alterar o produto ou a sua informação e considera-se que a probabilidade de deteção é baixa. Analisar estes fatores ajuda a identificar onde deve concentrar-se a vigilância.
Uma cadeia documentada nem sempre é uma cadeia controlada
O caso da carne de cavalo detetada em produtos rotulados como carne de bovino na Europa mostrou uma fragilidade que continua a ser relevante: dispor de especificações e certificados não garante, por si só, que se conheça toda a cadeia de abastecimento.
Quando uma matéria-prima passa por vários operadores, é necessário compreender quem intervém, onde o produto é transformado e em que pontos poderia ocorrer uma substituição. Por isso, ao avaliar a exposição à fraude, a empresa deve olhar para além do seu fornecedor direto e avaliar a complexidade da cadeia que existe por detrás.
A pergunta prática é: conseguiríamos detetar uma substituição antes de incorporar esta matéria-prima no nosso processo? A resposta dependerá tanto da informação fornecida pelo fornecedor como da capacidade para a verificar.
O que demonstra realmente uma análise
A adulteração de leite infantil com melamina na China ilustra outra questão essencial: um resultado aparentemente conforme nem sempre demonstra que um produto seja autêntico. Nesse caso, a adição de melamina podia alterar o resultado de um controlo indireto utilizado para estimar o teor de proteínas, enquanto o produto continuava adulterado e representava um risco para a saúde.
Este exemplo convida a rever os controlos a partir da perspetiva de uma adulteração intencional. Não basta perguntar que parâmetros são analisados. É também necessário avaliar que informação fornece cada resultado, que possíveis alterações permite detetar e quais poderiam passar despercebidas.
A autenticidade requer a combinação de evidências
Em produtos com uma elevada variabilidade natural, como o mel ou o azeite, demonstrar a autenticidade pode ser especialmente complexo. As características do produto podem mudar consoante a sua origem, a campanha ou as condições de produção. A isto somam-se possíveis práticas fraudulentas relacionadas com misturas, substituições ou declarações enganosas sobre a sua proveniência.
Nestes casos, uma análise isolada pode fornecer um sinal, mas deve ser interpretada em conjunto com outras evidências: a documentação, a rastreabilidade, o conhecimento do fornecedor, a estrutura da sua cadeia de abastecimento e a informação disponível sobre o mercado. A seleção dos testes analíticos também deve responder ao tipo concreto de fraude que se pretende detetar.
O risco muda quando o mercado muda
Uma avaliação realizada há meses pode deixar de refletir a situação atual. Uma subida acentuada dos preços, a escassez de uma matéria-prima, um novo país de origem ou a incorporação de um fornecedor podem aumentar o incentivo ou a oportunidade de cometer fraude. Nenhuma destas circunstâncias demonstra que exista uma irregularidade, mas justifica rever a avaliação e, quando aplicável, reforçar os controlos.
A prevenção exige, portanto, manter a vigilância sobre o que acontece dentro e fora da empresa. As próprias ocorrências, as reclamações, os alertas e a informação setorial podem fornecer sinais úteis para detetar novas vulnerabilidades.
O objetivo não é considerar suspeita cada matéria-prima sujeita a tensão comercial. É reconhecer quando mudaram as condições sobre as quais foi concebido o plano de controlo e decidir se continua a ser suficiente. Assim, a avaliação da fraude deixa de ser uma fotografia fixa e transforma-se numa ferramenta para se antecipar.